
Se o interior de Cantanhede cheira a vinho e a pedra cortada, o seu extremo ocidental é dominado pelo cheiro a maresia, iodo e madeira lavada pelo mar. A Praia da Tocha é o coração balnear do concelho, mas a sua identidade foi forjada pela dureza da sobrevivência na Gândara e pela bravura de uma comunidade que enfrentou o Atlântico de peito aberto.
A Praia da Tocha é um dos últimos bastiões mundiais da Arte Xávega, um método de pesca artesanal com mais de mil anos de história. Os pescadores locais lançam-se ao mar bravo em barcos de madeira de pinho com uma forma icónica de meia-lua e proa empinada, desenhados especificamente para galgar a rebentação violenta da costa centro.
As redes são largadas a quilómetros da costa e, antigamente, eram puxadas de volta para a areia pela força hercúlea de juntas de bois. Hoje, os tratores substituíram os animais, mas o momento em que a rede chega à praia repleta de sardinhas e carapaus reluzentes — as redes de prata — continua a atrair multidões e a alimentar a restauração de topo da região.
Na areia, erguem-se os célebres Palheiros da Tocha. Estas habitações únicas, construídas originalmente em estacas de madeira de pinho para evitar o avanço das dunas e das marés, eram os refúgios temporários dos agricultores da Gândara que, no verão, se transformavam em pescadores.
Hoje, os palheiros são uma joia do património arquitetónico nacional, convertidos em casas de férias pitorescas e cafés com alma. Eles são o símbolo máximo da resiliência gandaresa: a prova de que com madeira do pinhal e engenho humano é possível erguer um império debeleza em cima da areia mais instável.
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