
As pedras do Castelo de Montemor-o-Velho oferecem uma das vistas mais deslumbrantes sobre o Baixo Mondego, mas escondem no seu subsolo uma lenda banhada a sangue. Entre os mitos da Reconquista, poucos são tão dramáticos e chocantes como o sacrifício do lendário Abade João.
A história transporta-nos para o ano de 1011. As ferozes tropas muçulmanas cercaram o castelo, cortando todas as rotas de fuga e de abastecimento. Durante dias intermináveis, os defensores cristãos resistiram, mas a fome e a exaustão começaram a ditar o fim. O Abade João, comandante da guarnição, percebeu que a queda da fortaleza era uma questão de horas.
O destino das mulheres e crianças cristãs às mãos dos invasores seria implacável: a escravatura, a violação e a conversão forçada.
Foi então que o líder tomou uma decisão de uma frieza atroz. Para salvar a sua família da humilhação e da captura, o Abade João empunhou a sua própria espada. Num ato de desespero absoluto, degolou os seus entes queridos perante os olhares aterrorizados dos seus homens.
A lenda dita que, com as mãos manchadas do seu próprio sangue e sem mais nada a perder neste mundo, o Abade João ordenou que abrissem os portões. Lançou-se sobre o acampamento inimigo com uma fúria tão cega, demoníaca e suicida que as tropas sarracenas, em pânico perante aqueles homens que já não temiam a morte, acabaram por debandar. O castelo foi salvo, mas o eco deste sacrifício terrível ainda hoje parece ouvir-se quando o vento sopra nas muralhas.
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