
Mais do que um ponto estratégico de passagem na Estrada Nacional 1, é um local onde a história, as ocupações antigas e as lendas populares se cruzaram para moldar a força e o caráter da sua gente.
Se perguntarmos a um linguista de onde vem o nome “Barcouço”, a resposta será um fascinante debate histórico. Uma das teorias mais sólidas aponta para origens Celtas, derivando da antiga palavra “Barcauso”.
Contudo, no século XVIII, o historiador Frei João de Sousa propôs uma etimologia com origem na ocupação Árabe: a junção de “bárr-“ (que significa ‘campo’) com “causon” (relativo a ‘arco’). Se esta teoria for a correta, Barcouço significava o “Campo do Arco”. O que é indesmentível é a sua antiguidade: registos do ano 967, presentes no Livro Preto da Sé Velha de Coimbra, já se referiam a estas terras férteis, provando que a fixação desta comunidade tem mais de mil anos.
Mas se a toponímia nos fala do passado, é a lenda de Santa Luzia que nos explica a vitalidade do presente. No limite de Barcouço, na zona hoje rasgada pelo asfalto, existia a famosa “Fonte dos Olhos”.
A tradição oral conta que as águas desta pequena nascente eram sagradas. Acreditava-se que quem lavasse o rosto nestas águas com verdadeira devoção a Santa Luzia — a padroeira e protetora da visão — veria os seus males oculares curados por milagre. A notícia do poder destas águas límpidas espalhou-se rapidamente por todo o país, transformando a zona num autêntico polo de peregrinação, atraindo romarias com milhares de pessoas.
Onde há multidões, nasce a oportunidade. Para alimentar e dar guarida aos romeiros de Santa Luzia, as gentes de Barcouço começaram a erguer as primeiras tabernas, estalagens e pequenas feiras.
Quando o século XX trouxe o asfalto e a Estrada Nacional 1, o percurso de fé transformou-se no grande eixo rodoviário de Portugal. Os carros de cavalos deram lugar aos motores de combustão. As antigas tascas evoluíram para os emblemáticos restaurantes e o lugar milagroso tornou-se naquilo que vemos hoje: um gigantesco e pujante “shopping” automóvel e de comércio a céu aberto.
O milagre da fonte pode já não juntar os romeiros de antigamente, mas a “visão” concedida pela padroeira vive agora no espírito empreendedor do comércio de Barcouço — uma vila que nunca perdeu a arte de receber quem passa.
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