
Esqueça Romeu e Julieta; a maior, mais negra e mais real tragédia romântica da Europa aconteceu na margem esquerda do rio Mondego. Longe da luz e da ciência que iluminavam a Alta universitária, os recantos húmidos e fechados de Coimbra serviram de palco a uma conspiração política que acabou banhada em sangue.
No século XIV, o infante D. Pedro, herdeiro do trono português, cometeu o pior erro político possível: apaixonou-se perdidamente pela aia da sua mulher, a fidalga castelhana Inês de Castro. O que começou como um romance proibido rapidamente se transformou numa ameaça à independência de Portugal. Os irmãos de Inês ganharam demasiada influência sobre o futuro rei, e a nobreza portuguesa, aterrorizada com a possibilidade de o país cair nas mãos de Castela, exigiu medidas extremas ao rei D. Afonso IV, pai de Pedro.
A sentença foi ditada nos corredores frios do poder (curiosamente, em Montemor-o-Velho, como já vimos). O amor tinha de ser cortado pela raiz.
A 7 de janeiro de 1355, enquanto D. Pedro estava a caçar, três assassinos a soldo do rei invadiram os jardins do Paço de Santa Clara (atual Quinta das Lágrimas) e degolaram Inês de Castro junto à nascente de água. Reza a lenda que a fonte chora a sua morte até hoje, e que a mancha avermelhada nas pedras do fundo é o sangue imortal de Inês (um fenómeno, na verdade, causado por uma alga vermelha única, a Hildenbrandia rivularis).
Séculos depois, esta tragédia de loucura, vingança (Pedro arrancou o coração aos assassinos quando subiu ao trono) e coroação póstuma, transformou-se num íman turístico incalculável. A Quinta das Lágrimas é hoje um hotel de luxo reconhecido mundialmente, provando que a aura de mistério e a força do “amor até ao fim do mundo” continuam a ser um dos ativos económicos mais valiosos e fascinantes de Coimbra.
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