
Entrar na Biblioteca Joanina, no pátio das escolas da Universidade de Coimbra, é pisar o interior de um cofre de proporções épicas. Mandada construir no século XVIII pelo rei D. João V, o Magnânimo, esta obra-prima do barroco exibe estantes de madeiras exóticas do Brasil e tetos adornados com trompe-l’œil. Guarda dezenas de milhares de volumes inestimáveis. Contudo, o grande fascínio deste espaço não é apenas arquitetónico; é também zoológico.
Livros antigos, compostos por papel e cola orgânica, são um banquete irresistível para insetos papirófagos (comedores de papel). Para evitar que a história do mundo fosse devorada por traças, a Joanina conta há séculos com uma equipa de segurança altamente especializada e totalmente gratuita: uma colónia de minúsculos morcegos.
Durante o dia, estes animais dormem escondidos atrás das monumentais estantes de carvalho. À noite, quando os pesados portões de teca se fecham e os turistas desaparecem, os morcegos saem dos seus esconderijos. Num bailado noturno e silencioso, caçam e devoram qualquer inseto que ouse aproximar-se dos livros, funcionando como um controlo de pragas 100% ecológico e implacável.
Claro que este exército alado traz um pequeno inconveniente: os dejetos. Por isso, todos os dias, ao final da tarde, os funcionários da biblioteca executam um ritual ancestral, cobrindo as sumptuosas mesas de leitura com grossas toalhas de cabedal para as proteger. De manhã, o espaço é rigorosamente limpo antes de as portas se abrirem.
Este equilíbrio perfeito entre a sumptuosidade do ouro monárquico e a biologia animal transformou-se num dos maiores mitos e atrativos de Coimbra. A lenda dos “morcegos guardiões” prova que, nesta biblioteca monumental, o verdadeiro espetáculo acontece na escuridão.
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