
O relógio bate a meia-noite no Largo da Sé Velha. Milhares de capas negras sentam-se no chão em silêncio sepulcral. Assim que os primeiros acordes da guitarra portuguesa rasgam o ar, a multidão estremece. O Fado de Coimbra (ou a Canção de Coimbra, como os puristas preferem) é um fenómeno único no mundo: é cantado exclusivamente por homens, obrigatoriamente vestidos de negro e ao ar livre. Mas a sua história esconde uma revolução.
Originalmente, esta canção não tinha pretensões heróicas. No século XIX e início do século XX, era a arma de engate perfeita. Os estudantes muniam-se de guitarras e iam cantar debaixo das janelas das raparigas da cidade (as “tricanas”) jurando amor eterno. Era uma serenata romântica e boémia.
Contudo, com a chegada do Estado Novo e o sufoco da ditadura de Salazar, o Fado transformou-se. Sobretudo a partir da monumental Crise Académica de 1969, os estudantes deixaram de cantar ao amor e passaram a cantar à liberdade. Nomes como Zeca Afonso (que compôs “Grândola, Vila Morena”) e Adriano Correia de Oliveira utilizaram a métrica tradicional do Fado de Coimbra para contornar a censura e mobilizar as massas, transformando as guitarras em autênticas armas de arremesso contra o regime.
Hoje, essa aura mítica de rebeldia não se perdeu e converteu-se num ativo turístico premium. Surgiram um pouco por toda a cidade centros culturais e casas especializadas (como o “Fado ao Centro”) que oferecem espetáculos diários a turistas maravilhados com a carga emocional desta música. O Fado de Coimbra provou ser capaz do impensável: derrotou ditaduras com poesia e é, atualmente, um dos negócios culturais mais valiosos e exportáveis da região Centro.
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