
Para quem visita a encantadora vila histórica de Ançã, o som da água é uma constante. No centro de tudo está a sua monumental fonte quinhentista, que alimenta uma das piscinas naturais mais famosas e fotogénicas da região. Contudo, a verdadeira história desta água não está à superfície; está escondida num submundo impenetrável conhecido como a Fonte Cega.
A Fonte Cega é, na verdade, uma formidável ressurgência cárstica. A água que brota com uma força impressionante no centro da vila viaja durante quilómetros através de um complexo e insondável labirinto de grutas e galerias subterrâneas escavadas no coração do maciço calcário. Os antigos habitantes chamavam-lhe “Cega” porque a sua origem exata era um enigma absoluto: ninguém sabia onde começava este rio invisível que nunca secava, mesmo nos verões mais tórridos.
Ao longo dos séculos, a pureza e a temperatura constante desta água alimentaram lendas de propriedades milagrosas e medicinais. Dizia-se que as águas de Ançã tinham o poder de curar maleitas da pele, dores de ossos e até de devolver a força aos enfermos.
O mito era tão forte que a vila transformou-se numa paragem obrigatória para a realeza e alta nobreza em viagem pelo país. O próprio rei D. João III e a rainha D. Catarina de Áustria renderam-se aos encantos e aos “milagres” da fonte. Hoje, a Fonte Cega continua a ser o sangue que corre nas veias de Ançã, transformando a vila num autêntico oásis onde a geologia e o mito se fundem de forma perfeita.
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