
Existe uma pedra em Portugal que desafia a dureza mineral. Quando é extraída das profundezas das pedreiras de Cantanhede, é tão macia e maleável que os antigos mestres diziam que podia ser talhada com uma simples faca de cozinha. Chamam-lhe Pedra de Ançã, um calcário único de grão finíssimo e cor de marfim que se transformou na matéria-prima dos maiores génios da nossa história.
Durante a Idade Média e o Renascimento, as pedreiras de Ançã tornaram-se o centro de gravidade da arte em Portugal. Escultores lendários, como o Mestre Pero ou o místico francês João de Ruão, perceberam que esta pedra permitia um nível de detalhe e realismo que nenhum outro material na Península Ibérica conseguia oferecer. Era possível esculpir as pregas finas de um manto de santa ou as expressões dramáticas de um guerreiro como se estivessem a trabalhar em gesso ou cera.
A riqueza gerada pela exportação desta pedra construiu impérios familiares em Cantanhede. Carregada em carros de bois ou transportada em barcas pelos rios, a Pedra de Ançã viajou para erguer e decorar os monumentos mais sagrados da nação: o Mosteiro da Batalha, a Sé Velha de Coimbra, o Mosteiro de Santa Cruz e o Convento de Cristo em Tomar estão repletos deste “ouro branco” de Cantanhede. Visitar as velhas pedreiras é, por isso, tocar diretamente nas fundações artísticas que definem a identidade de Portugal.
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