
Quando passeamos hoje pelas ruínas românticas do interior do Castelo de Montemor-o-Velho, a paz da paisagem sobre o Baixo Mondego engana. Entre estas pedras, outrora ergueu-se o imponente Paço das Infantas, um edifício palaciano que serviu de palco para uma das decisões mais frias, calculistas e sangrentas da História de Portugal.
A história remonta ao século XIV. O infante D. Pedro, herdeiro do trono português, vivia uma paixão cega por Inês de Castro. Para o rei D. Afonso IV, esta ligação era muito mais do que um escândalo amoroso; era uma ameaça à independência nacional, devido à forte influência dos nobres castelhanos (família de Inês) sobre o futuro rei de Portugal.
Foi precisamente em Montemor-o-Velho, no recato seguro da alcáçova do castelo, que D. Afonso IV convocou o seu conselho mais restrito em 1355. Ali, longe dos olhares da corte, debateram o destino do reino e assinaram a sentença que mudaria o país: Inês de Castro tinha de morrer. Poucos dias depois desta reunião secreta nas muralhas de Montemor, os assassinos executaram a ordem no Paço de Santa Clara, em Coimbra.
O paço onde esta terrível decisão foi tomada não era um simples edifício militar. A sua construção original remonta ao século XI, por ordem de D. Urraca, tendo sido mais tarde transformado num luxuoso paço senhorial pelas infantas D. Teresa e D. Mafalda (filhas de D. Sancho I). Embora hoje restem apenas as suas ruínas de pedra nua, na altura era um símbolo máximo de poder e conforto.
Além dos fantasmas reais, o Castelo guarda outras lendas populares que ainda hoje arrepiam quem por lá passa. Conta-se que, algures nas profundezas das muralhas, perto da chamada “Porta da Peste”, estão enterradas a sete chaves duas misteriosas arcas.
A lenda dita que uma das arcas está repleta de um tesouro incalculável, com riqueza suficiente para sustentar Portugal inteiro em anos de crise. A outra, porém, contém uma peste tão virulenta e demoníaca que, se for libertada, aniquilará a região. Pelo sim, pelo não, o povo diz que quem descobrir o esconderijo não se atreve a abrir nenhuma das fechaduras, preferindo deixar o ouro e a doença a dormir para sempre.
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