
Quem se aproxima da Figueira da Foz pela ponte sobre o estuário do Mondego é brindado com uma paisagem geométrica deslumbrante: centenas de espelhos de água que refletem o sol até perder de vista. Este é o domínio da Ilha da Morraceira, o santuário ecológico e industrial onde se pratica uma alquimia secular.
As salinas da Figueira da Foz são uma obra de arte da engenharia tradicional. Sem recurso a maquinaria pesada, a produção de sal depende exclusivamente da conjugação perfeita entre as marés, o sol intenso do verão e os ventos secos do norte. Os marnotos, homens e mulheres de rostos curtidos pelo sol, são os grandes mestres desta alquimia, “colhendo” o sal com rodos de madeira, num trabalho braçal que atravessou gerações.
Durante séculos, o sal aqui produzido foi o grande motor económico da cidade e do país. Muito antes da invenção dos frigoríficos, o “Ouro Branco” da Morraceira era essencial para a conservação de alimentos, sendo a espinha dorsal da mítica frota bacalhoeira portuguesa que partia rumo à Terra Nova.
Hoje, com a reinvenção do mercado, as salinas apostaram no segmento premium. A colheita manual e cirúrgica da Flor de Sal (os finos cristais que se formam à superfície) colocou o produto da Figueira da Foz nas cozinhas dos melhores chefs do mundo. A Ilha da Morraceira é, agora, um polo de eco-turismo e um testemunho vivo de como a preservação do saber antigo continua a gerar riqueza.
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